Cidade de São Paulo tem expansão da privatização da educação e aumento de feminicídios, mostra diagnóstico

A cidade de São Paulo registra uma expansão da privatização na educação pública municipal. Segundo o Censo Escolar 2024, há queda de quase 6 mil matrículas nas creches da rede pública, com aumento da procura pela rede privada. Na educação profissional técnica de nível médio, a rede privada concentrava, em 2024, 58% das matrículas nessa modalidade, com 103.308 estudantes. Essa expansão tem ocorrido majoritariamente na rede privada e teve grande impulsionamento com a reforma do ensino médio, implementada na cidade em 2021.
Essa é apenas uma das evidências identificadas em diagnósticos produzidos pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, em conjunto com a Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero e o Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos (IDDH), e divulgados nesta terça (25/11). O apoio é da União Europeia.
O relatório sobre a cidade de São Paulo (SP) mostra que a maioria das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4 (Educação de Qualidade) e 5 (Igualdade de Gênero) da Agenda 2030 são classificadas como "ameaçada" ou "em retrocesso". Saiba mais abaixo.
No ensino fundamental da rede municipal paulistana, observa-se queda nas matrículas e no desempenho dos estudantes em avaliações de português e matemática, além do recuo no percentual de jovens de 17 a 19 anos com o ensino fundamental concluído. A taxa de conclusão do ensino médio permanece distante da meta para 2030, com retrocessos nas taxas de abandono escolar. A grande maioria (76%) dos egressos do ensino médio público não consegue acesso em universidades públicas.
A infraestrutura escolar tem destaque negativo para bibliotecas e laboratórios de ciências, disponíveis em apenas 7% e 16% das escolas, respectivamente. Essas deficiências são mais graves em escolas localizadas em níveis socioeconômicos mais baixos, áreas rurais e terras indígenas.
Com relação à igualdade de gênero, os direitos das mulheres seguem sendo negados. Dados da Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo (SSP/SP) mostram que a cidade de São Paulo registrou em 2024 um total de 45 feminicídios. Dados do mesmo órgão indicam um considerável aumento no número de crimes no primeiro semestre de 2025, que contabilizou 39 feminicídios até o final do mês de julho. Esse número representa um aumento de quase 40% em relação ao primeiro semestre de 2024, quando se registrou 28 casos.
Dados do Registro Civil indicam que até junho de 2025, 599 dos 25.180 casamentos registrados foram com mulheres menores de 20 anos, e cerca de 7,5% dos partos são de mães adolescentes.
ODS 4 e 5
Esses são apenas alguns dos destaques do diagnóstico de monitoramento que revela um cenário de preocupação, indicando que a capital paulista está distante de cumprir seus compromissos globais até 2030.
O monitoramento abrange 10 metas do ODS 4 (excluindo a 4.b, classificada como "não se aplica" em ambos os municípios) e 9 metas do ODS 5, totalizando 19 metas analisadas. No diagnóstico da cidade de São Paulo, 12 metas foram classificadas como "ameaçada" ou "em retrocesso".
Em paralelo, a cidade de Recife também teve seu diagnóstico produzido pelas entidades.
O diagnóstico apresentado, com foco especial nos ODS 4 e 5, foi construído a partir de metodologias participativas elaboradas por jovens de organizações integrantes do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030 (GTSC-A2030), da Rede de Advocacy Internacional Jovem do Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos (RAIJ/IDDH), do Coletivo da Revisão Periódica Universal Brasil (Coletivo RPU Brasil) e da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Saiba mais ao final deste texto.
Abaixo, veja os diagnósticos de cada meta. Por razões de síntese e clareza, as descrições das metas não constam dessa lista – elas podem ser encontradas no documento.
DIAGNÓSTICO DA IMPLEMENTAÇÃO DOS ODS 4 E ODS 5 NA CIDADE DE SÃO PAULO (SP)
ODS 4 - Educação de Qualidade
Meta 4.1
Classificação: Em retrocesso
Dados do Censo Escolar, indicam que a cidade de São Paulo registrou 1.338.170 matrículas no Ensino Fundamental em 2024, apresentando uma queda de 550 matrículas em relação a 2023. Em relação ao indicador 4.1.1, que mede o nível mínimo de proficiência em leitura e matemática, dados de 2023 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) indicam uma queda no desempenho das/os estudantes em avaliações de português e matemática, realizadas pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) nos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio e queda seguida por estagnação nos anos iniciais do ensino fundamental.
A análise do indicador 4.1.2, que mede a taxa de conclusão do ensino fundamental e ensino médio, também indicam que a cidade de São Paulo está distante de atingir a meta 4.1. No caso do percentual de jovens de 17 a 19 anos com o ensino fundamental concluído, as taxas mais recentes divulgadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) têm apresentado recuo, inclusive em relação aos valores registrados em 2016, com queda de 2 pontos percentuais (p.p.) nos últimos anos com dados disponíveis. Já para o ensino médio, apesar de o percentual de jovens de 20 a 22 anos que têm a etapa concluída ter aumentado recentemente, a taxa de 86% de conclusão ainda está longe da meta para 2030.
Meta 4.2
Classificação: Ameaçada
Segundo o Censo Escolar 2024, em 2024, a cidade de São Paulo registrou 370.706 matrículas em creches, das quais 320.104 foram em instituições privadas, indicando que a rede privada foi responsável por 86,35% das matrículas naquele ano. Em 2023, foram registradas 376.676 matrículas, das quais 324.157 ou 86,06% em instituições privadas. Além de ter havido uma queda de quase 6 mil matrículas no geral, ainda houve um aumento da procura pela rede privada. Esse aumento das matrículas na rede privada tem sido seguido por uma queda na demanda não atendida nas creches municipais. Na etapa pré-escolar, o Censo Escolar indica 281.329 matrículas na cidade de São Paulo em 2024, das quais 83.674 (29,74%) na rede particular. No ano anterior, o total de matrículas foi 289.822 com 80.263 (27,69%) feitas em instituições particulares. Novamente o que se observa é uma queda de quase 8,5 mil matrículas com um aumento de 2,05 p.p. na porcentagem de matrículas feitas na rede particular. Em consonância com os dados nacionais, a educação infantil é a etapa da educação básica com maior presença do setor privado, reforçando uma lógica de delegação de funções estruturantes do Estado à iniciativa privada — muitas vezes sem os mesmos compromissos com a equidade e a qualidade.
Meta 4.3
Classificação: Em retrocesso
Dados do Censo Escolar mostram que, na cidade de São Paulo, há grandes taxas de abandono escolar que se intensificam ao longo do ensino médio. Em 2024, o primeiro ano do ensino médio contou com 158.937 de matrículas, número que caiu para 153.559 no segundo ano e chegou a 145.390 no terceiro e último ano. Ainda que a relação direta não possa ser estabelecida, dado que não são as mesmas matrículas e há que se considerar as taxas de retenção, é possível identificar a tendência de abandono escolar, principalmente na transição para o ano final do ensino médio. Em relação ao ensino superior, os dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que o percentual de adultos na cidade de São Paulo que possuem ensino superior completo - taxa que apresentava tendência de crescimento a partir de 2019 -, voltou a se inverter em anos mais recentes. Entre os anos de 2022 e 2023 pode-se observar uma variação negativa de 3 p.p.. Para além das quedas nas taxas de conclusão do ensino superior, quando analisamos em detalhes os dados do Censo da Educação Superior, no que diz respeito as/os estudantes do ensino superior de acordo com sua origem, identificamos as desigualdades em relação ao acesso à educação de qualidade. A grande maioria (76%) dos egressos do ensino médio público não conseguem acesso em universidades públicas, que são reconhecidas pela qualidade de ensino e pesquisa. Mesmo com os recentes avanços nos sistemas de cotas, somente 38% dos egressos do ensino público estão matriculados no ensino superior público. Entre os matriculados no ensino superior privado, a maioria realiza cursos oferecidos na modalidade à distância.
Meta 4.4
Classificação: Em retrocesso
A reforma do ensino médio, implementada na cidade de São Paulo em 2021, ampliou a possibilidade de expansão das matrículas ao incluir a formação técnica e profissional como um dos itinerários formativos. Com isso, pode-se observar aumento substancial nas matrículas na educação profissional técnica de nível médio entre 2021 e 2022 (+14,5%). No entanto, essa ampliação veio acompanhada de fragilidades preocupantes: permitiu, por exemplo, que profissionais sem formação docente atuassem nas disciplinas técnicas e que parte do ensino médio fosse oferecida a distância. Em anos mais recentes é possível ver uma inversão nessa tendência de matrículas na educação profissional técnica de nível médio, com queda de quase 3% entre os anos de 2023 e 2024. Na cidade de São Paulo, a expansão das matrículas na educação profissional técnica de nível médio tem ocorrido majoritariamente na rede privada, que, em 2024, somou 103.308 matrículas, correspondendo a 58% do total de matrículas nessa modalidade. Essa combinação de privatização crescente, flexibilização da formação docente e uso de modalidades com baixa efetividade coloca em risco não apenas a meta quantitativa de expansão, mas, sobretudo, a garantia de uma educação pública, gratuita e de qualidade.
Meta 4.5
Classificação: Ameaçada
No que diz respeito à quantidade de anos de estudos, a cidade de São Paulo tem apresentado paridade entre mulheres e homens, com pequenas vantagens para as mulheres. Dados da PNAD Contínua mostram que, em 2023, as mulheres tinham 13 anos de estudos em média contra 12,7 anos dos homens. Esses valores apresentaram uma pequena variação negativa em relação ao ano anterior, mas as mulheres ainda estavam em vantagem. No entanto, apesar de acumularem mais anos de estudo e já serem maioria no ensino superior, as mulheres no Brasil continuam concentradas em áreas tradicionalmente associadas aos cuidados. O Censo da Educação Superior mostra que cerca de 74% das matrículas em licenciaturas em 2023, cursos historicamente de baixa valorização salarial e de carreira, são femininas. Enquanto isso, os homens seguem ocupando majoritariamente os cursos de ciências e tecnologia e aqueles com maior prestígio e retorno profissional, evidenciando a persistência das desigualdades de gênero na escolha e valorização das formações acadêmicas. No que se refere ao Nível Socioeconômico (NSE), a formação profissional para os mais vulneráveis enfrenta graves desafios. Dados do Censo da Educação mostram que as matrículas Educação Profissional Técnica de Nível Médio (EPTNM) se concentram nos níveis socioeconômicos mais altos, enquanto o acesso é menor entre os níveis mais baixos.
Meta 4.6
Classificação: Ameaçada
Dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que, a tendência de alta nas taxas de conclusão dos anos iniciais do ensino fundamental começou a se inverter a partir da pandemia de Covid-19. A taxa de conclusão, que chegou a 95% antes da pandemia, em 2023 estava em 93,2%. Entre 2022 e 2023 houve uma queda de 1,2 p.p.. Os dados mais recentes da PNAD Contínua indicam que uma alta proporção da população (98,4%) declarou saber ler e escrever em 2023. Essa taxa tem se mantido alta em anos recentes, com pequenas variações. No entanto, a dificuldade em ler, escrever e raciocinar com informações básicas do dia a dia, mesmo que a pessoa consiga reconhecer letras e números ainda atingem grande parte da população brasileira. Dados da a pesquisa do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) indicam que a taxa de analfabetismo funcional no Brasil chega a 29%. Não há dados específicos para a cidade de São Paulo, mas a pesquisa estima que, para municípios de grande porte, a proporção de analfabetos funcionais chega a 22%.
Meta 4.7
Classificação: Progresso insuficiente
O Currículo da Cidade, atualizado em 2017 à luz do debate em âmbito nacional sobre a BNCC e válido para a rede municipal de ensino, adota explicitamente a Agenda 2030 como um de seus referenciais e prevê objetivos de aprendizagem relacionados aos seus temas. Ainda há muito o que avançar, contudo, em educação em direitos humanos e em convivência escolar, considerando as taxas de violência em escolas em São Paulo.
Meta 4.a
Classificação: Ameaçada
Quando se analisa o percentual de itens de infraestrutura nas escolas da cidade de São Paulo, encontra-se que itens básicos como eletricidade, fornecimento de água potável e esgotamento sanitário já estão disponíveis em 100% dos casos. No entanto, dados mais recentes do Censo da Educação Básica indicam que as escolas ainda carecem de alguns itens, com destaque negativo para bibliotecas e laboratórios de ciências, que estão disponíveis somente em 7% e 16% dos casos, respectivamente. Os dados desagregados evidenciam as desigualdades, sendo que as taxas mais baixas no percentual de infraestrutura são apresentadas pelas escolas nos níveis socioeconômicos mais baixos, de localização rural e em terras indígenas. Sobre a acessibilidade dos prédios, o quadro é ainda mais preocupante dado que o percentual de itens de acessibilidade é baixo na média geral e em todos os subgrupos. O banheiro acessível figura como item mais comum, presente em 66% dos casos, sendo que os demais itens não atingem os 50%, com destaque negativo para itens básicos como rampas de acesso, que não ultrapassam os 37%.
Meta 4.b
Classificação: Não se aplica.
Meta 4.c
Classificação: Em retrocesso
Em relação à qualificação de professoras/es, a maior e mais rica cidade do país, a cidade de São Paulo, ainda não atingiu a plena formação de profissionais na área de conhecimento em que lecionam. Na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, a taxa de formação superior na área tem aumentado ao longo dos anos. No caso dos anos iniciais do ensino fundamental, houve uma queda considerável em 2022 e agora houve recuperação e retomada dos patamares próximos aos valores de 2021. Já nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, as taxas são comparativamente mais baixas e estão próximas aos valores observados em 2015. É importante notar a queda considerável (13,1 p.p.) no percentual de professores do ensino fundamental cuja formação superior é adequada à área de conhecimento em que lecionam em 2021, ano da implementação da reforma do ensino médio no estado de São Paulo, que permitiu que profissionais sem formação docente atuem nas disciplinas técnicas. Os dados mais recentes mostram que não houve recuperação nas taxas de formação, 1,2 p.p. para os anos finais do ensino fundamental e 3,7 p.p. no ensino médio.
ODS 5 - Igualdade de Gênero
Meta 5.1
Classificação: Progresso insuficiente
Apesar da existência de um arcabouço legal municipal, observa-se que esse conjunto normativo está fortemente centrado no enfrentamento da violência contra a mulher, deixando em segundo plano outras dimensões estruturais da desigualdade de gênero. As leis e decretos priorizam medidas protetivas, programas de responsabilização de agressores e políticas de assistência, como o auxílio-aluguel, mas não avançam com a mesma intensidade em áreas como acesso e permanência no mercado de trabalho, igualdade salarial, valorização profissional, participação política, divisão sexual do trabalho ou enfrentamento do sexismo institucional. Além disso, o monitoramento e a efetividade dessas políticas ainda carecem de mecanismos sistemáticos de avaliação, transparência e indicadores específicos, o que limita a capacidade do município de mensurar resultados e promover ajustes necessários. Assim, embora represente um avanço relevante, o arcabouço legal vigente revela uma abordagem fragmentada e reativa, respondendo às situações de violência já ocorridas, em vez de estruturar políticas mais abrangentes e preventivas voltadas à superação das desigualdades de gênero em sua totalidade.
Meta 5.2
Classificação: Em retrocesso
Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo (SSP/SP), a cidade de São Paulo registrou em 2024 um total de 45 feminicídios. Fato de grande repercussão na mídia, dados do mesmo órgão, indicam um considerável aumento no número de crimes no primeiro semestre de 2025, que contabilizou 39 feminicídios até o final do mês de julho. Esse número representa um aumento de quase 40% em relação ao primeiro semestre de 2024, quando se registrou 28 casos. Em relação à violência sexual, a SSP/SP aponta que em 2024 foram feitas 759 denúncias de estupro na cidade de São Paulo e 2.112 denúncias de estupro de vulnerável. Esses valores são semelhantes aos de 2023, mas, como os dados de feminicídio, apresentam uma considerável alta no primeiro semestre de 2025. Até julho de 2025 foram registradas 424 ocorrências de estupro, um aumento de 23% em relação ao primeiro semestre de 2023 quando se registraram 345. Já os estupros de vulneráveis tiveram um aumento de 10% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2024, contabilizando 1.131 este ano contra 1.027 no ano passado.
Meta 5.3
Classificação: Ameaçada
No Brasil, o casamento é proibido para menores de 15 anos. A Lei nº 13.811, de 12 de março de 2019, é uma lei brasileira que proíbe o casamento de menores de 16 anos em qualquer circunstância, conferindo nova redação ao artigo 1.520 do Código Civil e suprimindo as exceções que antes permitiam o casamento para menores, como em casos de gravidez. No entanto, é sabido que há uniões forçadas de meninas abaixo dessa idade, porém sem registros oficiais. Segundo dados do Sistema de Estatísticas do Registro Civil do estado de São Paulo, até o mês de junho de 2025, dos 25.180 casamentos registrados na cidade de São Paulo, 599 foram com mulheres com menos de 20 anos. No estado de São Paulo, a média anual é de 2.106 casamentos envolvendo pessoas menores de 18 anos, segundo levantamento da Central de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), plataforma administrada pela Arpen-Brasil com dados de nascimentos, casamentos e óbitos dos 7.761 cartórios do país.
Meta 5.4
Classificação: Progresso insuficiente
De acordo com dados mais recentes da PNAD Contínua, a diferença entre a quantidade de horas semanais dedicadas ao trabalho doméstico não remunerado entre mulheres e homens diminuiu entre os anos de 2019 e 2022. No entanto, permanece em uma média de quase 8 horas semanais a mais de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado para as mulheres. Adicionalmente, dados da Prefeitura Municipal de São Paulo e do Censo Escolar da Educação Básica mostram que as matrículas em creches e pré-escola têm caído e ainda há demanda não atendida por vagas no sistema público, que tem sido abastecido pelo setor privado.
Meta 5.5
Classificação: Progresso insuficiente
A Câmara Municipal de São Paulo tem elevado o número de cadeiras ocupadas por mulheres vereadoras. Na última eleição foram eleitas 20 mulheres, subindo para 36,4% a representação feminina na câmara legislativa. Esse valor estava estagnado ao redor dos 20% nas duas eleições anteriores. No entanto, para que se atinja a paridade até 2030, é necessário aumentar em 13,6 p.p. esse percentual, com a eleição de ao menos 27 mulheres na próxima rodada eleitoral em 2028.
Meta 5.6
Classificação: Ameaçada
No Brasil, o aborto por livre demanda é proibido por lei, sendo permitido apenas em três situações: quando a gravidez resulta de estupro, quando há risco de morte para a gestante ou em casos de anencefalia do feto, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal. Há, no entanto, relatos de dificuldade e mesmo impossibilidade de acesso ao serviço nos casos garantidos por lei. Em São Paulo, a rede municipal de saúde oferece gratuitamente diversos métodos contraceptivos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como preservativos, pílulas anticoncepcionais, DIU, implantes subdérmicos e cirurgias de laqueadura e vasectomia. No entanto, o acesso a esses serviços não é universal, pois enfrenta barreiras de falta de financiamento além de entraves burocráticos e longas filas de espera, o que limita o direito pleno à saúde sexual e reprodutiva. Estatísticas do Registro Civil mostram que na cidade, cerca de 7,5% dos partos são de mães adolescentes.
Meta 5.a
Classificação: Ameaçada
Pela lei 13.770, de 29 de janeiro de 2004, os programas habitacionais implementados com recursos geridos pelo Executivo Municipal ou realizados em parceria com este devem ter a mulher como um de seus públicos-alvo prioritários. Além disso, a transferência de titularidade também deve ser prioritariamente feita em nome da mulher. Pelo decreto 61.282/2022, os Programas de Provisão Habitacional do município operam com cota mínima de 5% da alocação a famílias com mulheres em situação de violência doméstica. Além disso, famílias com mulheres na posição de responsável pelo sustento da unidade recebem bônus na classificação para o recebimento do programa. No entanto, o incentivo à produção de Habitação de Interesse Social previsto no Plano Diretor da cidade desde 2014 tem sido foco de fraudes envolvendo desvio da função social de habitações com ele construídas. Isso ocorreu após desmonte dos mecanismos de controle no ano de 2018. Em 2025, a gestão municipal foi denunciada pela Promotoria de Habitação e Urbanismo por omissão na fiscalização.
Meta 5.b
Classificação: Progresso insuficiente
Segundo a PNAD Contínua, em 2023 cerca de 23,2 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente a 12,4% da população com 10 anos ou mais, não possuíam telefone celular para uso pessoal. Em 2023, a posse de telefone celular para uso pessoal no Brasil era de 88,9% das mulheres e 86,3% dos homens. A região nordeste está acima da média do país, com uma taxa de 90,9% das pessoas com telefone móvel celular para uso pessoal. No entanto, o aumento foi de apenas 1 p.p. entre 2022 e 2023, mostrando avanço insuficiente para atingir 100% das mulheres em 2030. Em sua Agenda 2030, o Município de São Paulo prevê o atendimento à meta 5.b através da iniciativa FAB LAB LIVRE SP, que estimula a disseminação e compartilhamento de recursos e conhecimento sobre tecnologia, especialmente relacionados à fabricação digital. Com o objetivo de atingir participação feminina de 50% do público em 2030, a iniciativa tem, entre o público que inscreveu projetos no site da iniciativa, 40,7% de participação feminina, segundo dados da administração pública para 2023, frente ao valor de 30% em 2016.
Meta 5.c
Classificação: Estagnada
A Portaria SMPM nº 20, de 16 de dezembro de 2016, instituiu o 1º Plano Municipal de Políticas para as Mulheres (PMPM) do município, voltado a orientar as ações do poder público no quadriênio de 2017 a 2020. Em painel de monitoramento de implementação da Agenda 2030, hospedado em sítio do Executivo Municipal e com última atualização no ano de 2023, são apontadas as ausências de um monitoramento da execução deste Plano e de um segundo PMPM. Na data, a 6ª Conferência Municipal de Políticas para as Mulheres também estava com problemas na execução. Não foi encontrado, durante o período de produção do presente relatório, nenhum relatório de monitoramento do 1º PMPM, assim como informações sobre a 6ª CMPM.
Territorialização
A Agenda 2030, adotada pela ONU em 2015, é um plano de ação global que estabelece 17 ODS e 169 metas. Sua efetividade depende da territorialização do compromisso em nível municipal, onde os direitos e as condições de vida das populações devem se concretizar.
A participação ativa das juventudes confere legitimidade e renovação ao processo de monitoramento, fortalecendo a democracia e ampliando as possibilidades de transformação social no cumprimento da Agenda 2030 nos territórios.
A metodologia, desenvolvida por meio de oficinas, busca garantir que o monitoramento dos ODS seja acessível e conectado com as realidades locais. As juventudes são consideradas atores fundamentais para a implementação da Agenda 2030 e para a mediação entre o local e o internacional.
Os jovens de São Paulo e Recife destacaram a importância do trabalho com indicadores confiáveis e desagregações específicas, que incluam as comunidades locais e sejam sendo criados colaborativamente, verificando, por exemplo, como as estruturas públicas afetam o cotidiano e variam de acordo com o contexto socioeconômico.
Os participantes consideraram relevante o monitoramento da diversidade e inclusão nas escolas, através de recenseamentos locais realizados pelas próprias escolas. Outro aspecto apontado como estratégia importante de representação das juventudes é a aproximação com as associações locais, movimentos sociais e outras formas de organização comunitária para contextualizar a coleta de dados e a apresentação das análises.
Os jovens podem ser uma espécie de tradutores das metas e estratégias dos ODS, tornando-os mais palpáveis para suas comunidades.
Os documentos produzidos, também com base na experiência do GTSC-A2030 na elaboração do Relatório Luz, buscam transformar os dados em materiais para a incidência política nacional e internacional.
ASSESSORIA DE IMPRENSA
Renan Simão - comunicacao@campanhaeducacao.org.br
11 95857-0824
(Foto: Divulgação/SME-SP)