Análises

Resistir para/com a infância continuar a existir

Prezada leitora, prezado leitor.

A função de um prefácio, como a etimologia da palavra o conta, é dizer antes. Acontece que, depois da leitura dos textos que compõem esta revista, me resta, aqui, indicar reiteradamente que façam o mesmo, com afinco, com toda a atenção e fazendo jus a essas vozes que permeiam esses transcritos. É, portanto, ao que vou me prestar neste pequeno prefácio.

Esta seção da Revista Zero-a-Seis vem falar sobre um tema que deslocou a todas e todos nós de nossos lugares habituais: estamos experimentando e (sobre)vivendo em uma nova forma mandatória, imersos em um cenário de emergência global. Isso significa que tudo em nossas vidas, diante do cenário de pandemia de Covid-19, aconteceu – e tem acontecido – de forma muito mais rápida, muito mais intensa, e muito mais insegura e cheia de limitações.

Tenho dito que estamos vivendo uma crise dentro de uma crise: as desigualdades já existiam, mas se aprofundam – ou emergem à superfície, se tornam latentes, e gritam. E a educação sente profundamente nas vidas das e dos educadores, das e dos estudantes – especialmente de nossas crianças pequenas! –, das comunidades educacionais e de todas as redes que as permeiam. É nesse contexto que fui imersa, ao ler esses transcritos – e é nele que vocês também serão. Longe, contudo, de ser somente isso: os textos aqui reunidos trazem a crua realidade, mas com reflexão, teoria, prática, e proposições e criações de quem pensa onde os pés pisam.

Temos ouvido muito falar algumas palavras que têm sido empregadas constantemente no debate público e em espaços de tomada de decisão nesse novo contexto de nossa educação: “inovação”, “novo normal”, “tecnologias”, “remoto”, “híbrido”, dentre outras. Posso dizer, ao dialogar com as comunidades educacionais durante esse período sobre a situação das redes de ensino em todo o país, que as palavras que deveriam estar no centro do debate são “participação”, “direito humano”, “comunidade”, “inclusão”, “proteção”, “pedagogia”, dentre tantas outras. Nesta seção, você terá a garantia de encontrar o debate certo, porque, ao trazer as vozes de educadoras, educadores e especialistas da Educação Infantil, esses conceitos, valores e práticas não só não deixam de existir como nunca saem do centro da reflexão e do fazer educacional.

E tais premissas, que permeiam esta seção, foram muito bem resumidas pela professora Fabiana Canavieira, em um dos textos:

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nossos mundos e abandoná-las a seus próprios recursos, e tão pouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar o mundo comum’ (ARENDT, 2009, p. 247). Nunca essa citação fez tanto sentido! Pelo menos, não para mim! Ela diz: ‘uma criança nasceu – o mundo tornou a começar!’

E que bom que esta seção nasceu! Aqui, educadoras – no feminino, porque, sim, a creche é uma luta das mulheres, como me ensinou Ana Lúcia, uma das organizadoras desta coletânea – trazem conceitos e debates necessários. Diretrizes aligeiradas e sem escuta elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação; o abismo entre plataformas virtuais ou planos de trabalho e a realidade das comunidades educacionais; a falta de estrutura, condições de trabalho e formação de professoras para o novo cenário; as injustiças sociais pelas quais passam tantas famílias e tantas crianças em um cenário de asfixia dos programas sociais e o impacto disso na educação: todos esses elementos, e muitos outros, estão presentes nas análises das educadoras e dos educadores que aqui escrevem.

“Muitas vezes percebemos que o foco e a preocupação estão muito mais no conteúdo do que nos sujeitos. Essa é uma questão que precisa ser problematizada.” Renata Cristina Dias Oliveira, da Rede Municipal de São Paulo/FPEI
“Alunos relatam que só podem fazer as atividades, depois que a mãe faz a janta, porque ela vai abaixar a tampa do fogão e ele vai usar aquilo como suporte. Os professores têm muito a dizer, essa realidade é muito próxima de nós. [...] Percebemos que foram oferecidas soluções, antes mesmo de termos formulados questões críticas sobre isso. [...] assim como Paulo Freire era um intelectual amoroso, os professores assumiram para si seu legado. Estamos vendo várias ações dos professores fazendo grupos de WhatsApp para arrecadar valores e conseguir ajudar as famílias. [...] Cada vez que entregamos cestas básicas, voltamos com uma lista imensa de outras famílias que precisam.” Michelle do Nascimento Faria, da Rede Municipal de São Paulo/FPEI
“Eu tenho colegas que são incríveis em sala de aula, mas que não têm WhatsApp, que não usam o celular, que são de uma outra geração. Precisam se adaptar? Sim. [...] Mas o que eu quero dizer para todos os professores que estão aqui conosco é: isso não é natural. [...] Então penso assim: A necessidade pede? É um projeto político do nosso município, da rede municipal? Ok, então, vamos qualificar os nossos profissionais, que têm competência para aprender.” Natalia F. Cardia dos Santos, da Rede Municipal de São Paulo.

Mas para não dizer que não falei da “inovação”: como é bom poder apreciar, por escrito - com o poder de estagnar os tempos que só a leitura escrita tem - os debates ricos de especialistas preciosos que aconteceram em lives (ao vivo), nas telas e nas redes internautas! Ao passo que aproveitamos aqui as vantagens da leitura escrita, no entanto, a oralidade, a espontaneidade, e o campo semântico do meio nos quais os debates foram criados seguem vivos e dão um tom fluido, rico, e material às conversas – registradas no calor do momento. É um prato cheio, um verdadeiro acervo, para as(os) pesquisadoras(es) que se usam das análises dos discursos, assim como para as(os) leitoras(es) amantes da literatura que transborda os sujeitos.

E por falar em sujeitos, esse é o ponto em comum entre as diversas perspectivas trazidas nas vozes transcritas: aqui se fala em Educação propriamente dita, porque os sujeitos são o centro. As crianças pequenas são a fonte e o fim. E as(os) educadoras(es) não só estão na comunidade, como são a comunidade (p. 16). E essa é uma das diferenças primordiais entre educação como prática da liberdade e educação que só trabalha para reforçar a dominação. Como nos ensina bell hooks: “A voz engajada não pode ser fixa e absoluta. Deve estar sempre mudando, sempre em diálogo com um mundo fora dela” (em Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, p. 22). É muito disso que as(os) autoras(es) desta revista têm a nos ensinar, nesse momento que nos desloca de nossos lugares.

Antes de me despedir, gostaria de agradecer à Ana Lúcia Goulart de Faria, à Adriana Alves Silva e à Natália Cardia, pela honra em ser apresentada a essas vozes, em poder aprender com elas, e na possibilidade de estar aqui, não só participando deste diálogo, como convidando leitoras e leitores a terem suas vivências, trocas, análises e pesquisas a partir da leitura – e apreciação – deste acervo.

Eu disse no início que me restava indicar reiteradamente a leitura: espero, então, ter deixado o cenário de “palavramundo” (Paulo Freire, em A importância do ato de ler) aberto para as mentes curiosas e os ouvidos atentos.

Prefácio da Seção Outras Linguagens da Revista Zero-A-Seis (volume 22, n. 42), do NUPEIN/CED/UFSC. Acessível aqui.